História da Psicanálise

Freud e a História da Psicanálise

Freud, Schlomo Sigismundo, dito Sigmund (1856-1939).

 

Médico vienense, fundador da psicanálise. Nascido em Freiberg, na Moravia (ou Pribor, na República Tcheca), em 6 de maio de 1856. [...]

 

Como clínico, tratava essencialmente de mulheres da burguesia vienense, qualificadas como "doentes dos nervos" e sofrendo de distúrbios histéricos. [...] Procurou, antes de tudo, curar e tratar de suas pacientes, aliviando os seus sofrimentos psíquicos. Durante um ano, utilizou os métodos terapêuticos aceitos na época: massagens, hidroterapia, eletroterapia. Mas logo constatou que esses tratamentos não tinham nenhum efeito. Assim, começou a utilizar a hipnose, inspirando-se nos métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim. [...]

 

Trabalhando ao lado de Josef Breuer (médico austríaco), Freud abandonou progressivamente a hipnose pela catarse, inventou o método da associação livre e, enfim, a psico-análise. Essa palavra foi empregada pela primeira vez em 1896 e sua invenção foi atribuída a Breuer.

 

No âmbito de sua amizade com Wilhelm Fliess (médico alemão), ocorreram vários acontecimentos maiores na vida de Freud: sua auto-análise, um intercâmbio de caso (Emma Eckestein), a publicação de um primeiro grande livro, "Estudos sobre a histeria", no qual são relatadas várias histórias de mulheres [...] e, enfim, o abandono da teoria da sedução segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real. Essa renúncia, fundamental para a história da psicanálise, ocorreu em 21 de setembro de 1897. Freud comunicou-a a Fliess em tom enfático, em uma carta que se tornaria célebre: "não acredito mais na minha Neurótica.”.

 

Começou então a elaborar sua doutrina da fantasia, concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente, centrada no recalcamento e no Complexo de Édipo. Seu interesse pela tragédia de Sófocles foi contemporâneo de sua paixão por Hamlet. Freud era um grande leitor de literatura inglesa, alimentando-se especificamente da obra de Shakespeare: "Uma idéia atravessou o meu espírito", escreveu a Fliess em 1897, "de que o conflito edipiano encenado em Édipo Rei de Sófocles poderia estar também no cerne de Hamlet. Não acredito em uma intenção consciente de Shakespeare, mas, antes, que um acontecimento real levou o poeta a escrever esse drama, tendo seu próprio inconsciente lhe permitido compreender o inconsciente do seu herói."[..]

 

Da nova teoria do inconsciente nasceria um segundo grande livro, publicado em novembro de 1899, "A Interpretação dos Sonhos". "Você acredita", escreveu a Fliess, no dia 12 de junho de 1900, "que haverá um dia nesta casa uma placa de mármore com esta inscrição: 'foi nessa casa que, em 24 de julho de 1895, o mistério do sonho foi revelado ao doutor Sigmund Freud'? Até agora, tenho pouca esperança.”.

 

Entre 1901 e 1905, Freud publicou seu primeiro caso clínico (Dora) e três outras obras: "A psicopatologia da vida cotidiana" (1901), "Os chistes e sua relação com o inconsciente" (1905), "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" (1905).

 

Em 1902, com Afred Adler, Wilhelm Stekel, Max Kahane (1866-1923) e Rudolf Reitler (1865-1917), fundou a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, primeiro círculo da história do freudismo. Durante os anos que se seguiram, muitas personalidades do mundo vienense se juntaram ao grupo: Paul Federn, Otto Rank, Fritz Wittels, Isidor Sadger.

 

Em 1907 e 1908, o círculo dos primeiros discípulos freudianos se ampliou ainda mais, com a adesão à psicanálise de Hanns Sachs, Sandor Ferenczi, Karl Abraham, Ernest Jones, Abraham Arden Brill e Max Eitingon.

 

Durante o primeiro quarto do século, a doutrina freudiana se implantou em vários países: Grã-Bretanha, Hungria, Alemanha, costa leste dos Estados Unidos. Na Suíça produziu-se um acontecimento maior na história do movimento psicanalítico: Eugen Bleuler, médico co-chefe da clínica do hospital Burghölzli de Zurique, começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses, inventando ao mesmo tempo a noção de esquizofrenia. Uma nova "terra prometida" se abria assim à doutrina freudiana: ela podia, a partir de então, investir o saber psiquiátrico e tentar dar uma solução para o enigma da loucura humana.

 

No dia 3 de março de 1907, Carl Gustav Jung, aluno e assistente de Bleuler, foi a Viena para conhecer Freud. Depois de várias horas de conversa, ficou encantado com esse novo mestre. Seria o primeiro discípulo não-judeu de Freud.

 

Em 1909, a convite de Grandville Stanley Hall, Freud, em companhia de Jung e de Ferenczi, foi à Clark University de Worcester, em Massachusetts, para dar cinco conferências, que seriam reunidas sob o título de "Cinco lições de psicanálise". Apesar de um encontro produtivo com James Jackson Putnam e de um sucesso considerável, Freud não gostou do continente americano. Durante toda a vida, desconfiaria do espírito puritano desse país que acolhia suas idéias com um entusiasmo ingênuo e desconcertante.

 

Temendo o anti-semitismo e que a psicanálise fosse assimilada a uma "ciência judaica", Freud decidiu "desjudeizá-la", pondo Jung à frente do movimento. Depois de um primeiro congresso, que reuniu em Salzburgo, em 1908, todas as sociedades locais, criou com Ferenczi, em Nuremberg, em 1910, uma associação internacional, a Internationale Psychoanalytische Vereinigung (IPV). Em 1933, a sigla alemã seria abandonada. A IPV se tornaria então a International Psychoanalytical Association (IPA).

 

Entre 1909 e 1913, Freud publicou mais duas obras: "Leonardo da Vinci: uma lembrança da sua infância" (1910) e "Totem e Tabu" (1912-1913).

 

A partir de 1910, a expansão do movimento se traduziu por dissidências, tendo como motivo simultaneamente querelas pessoais e questões teóricas e técnicas. Em 1911, Adler e Stekel se separaram do grupo freudiano.

 

Dois anos depois, Jung e Freud romperam todas as suas relações. Não suportando desvios em relação à sua doutrina, Freud publicou, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, um verdadeiro panfleto, "A história do movimento psicanalítico", no qual denunciou as traições de Jung e Adler. Depois, criou um Comitê Secreto, composto de seus melhores paladinos, aos quais distribuiu um anel de fidelidade.

 

Apoiados por Jones, os berlinenses (Abraham e Eitingon) preconizavam a ortodoxia institucional, enquanto os austro-húngaros (Rank e Ferenczi) se interessavam mais pelas inovações técnicas. Uma nova dissidência marcou ainda a história desse primeiro freudismo: a de Wilhelm Reich.[..]

 

Com o desmoronamento do império austro-húngaro, Berlim se tornou a capital do freudismo, como provou a criação do Berliner Psychoanalytisches Instiitut (BPI), e as numerosas atividades do instituto de Frankfurt em torno de Otto Fenichel e da "esquerda freudiana". Enquanto os americanos afluíam a Viena para se formar no divã do mestre, este analisava a própria filha, Anna Freud. Esta não tardaria a tornar-se chefe de escola e a opor-se a Melanie Klein, sua principal rival no campo da psicanálise de crianças. Nesse aspecto, a oposição entre a escola inglesa e a escola vienense, que se desenvolveu na IPA a partir de 1924 e que girava em torno da questão da sexualidade feminina, mostrou o lugar cada vez mais importante das mulheres no movimento psicanalítico. No centro dessa polêmica, Freud manteve sua teoria da libido única e do falocentrismo, sem com isso mostrar-se misógino. Ligado em sua vida particular a uma concepção burguesa da família patriarcal, adotava, todavia, em suas amizades com mulheres intelectuais, uma atitude perfeitamente cortês, moderna e igualitária. Por sua doutrina e por sua condição de terapeuta, desempenhou um papel na emancipação feminina.

 

Nos anos 1920, Freud publicou três obras fundamentais, através das quais definiu sua segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional: "Mais-além do princípio de prazer" (1920), "Psicologia das massas e análise do eu" (1921), "O eu e o isso" (1923). Esse movimento de reformulação conceitual já começara em 1914, quando da publicação de um artigo dedicado à questão do narcisismo. Confirmou-se, em 1915, com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra e a morte, no qual Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de "organizar-se em vista da morte, a fim de melhor suportar a vida". Dessa reformulação, centrada na dialética da vida e da morte e em uma acentuação da oposição entre o eu e o isso, nasceriam as diferentes correntes do freudismo moderno: Kleinismo, Ego Psycholog, Self Psychology, lacanismo, annafreudismo, Independentes. [...]

 

Em fevereiro de 1923, Freud descobriu, do lado direito de seu palato, um pequeno tumor, que devia ser logo extirpado. Em um primeiro tempo, Felix Deutsch, seu médico, lhe ocultou a natureza maligna desse tumor. Freud se indispôs com ele. Seis meses depois, Hans Pichler, cirurgião vienense, procedeu a uma intervenção radical: a ablação dos maxilares e da parte direita do palato. Trinta e uma operações seriam feitas posteriormente, sob a supervisão de Max Schur. Freud foi obrigado a suportar uma prótese, que ele chamava de "monstro". "Com seu palato artificial", escreveu Stefan Zweig, "ele tinha visivelmente dificuldade para falar [...]. Mas não abandonava seus interlocutores. Sua alma de aço tinha a ambição particular de provar a seus amigos que sua vontade era mais forte que os tormentos mesquinhos que seu corpo lhe infligia [...]".

 

Em 1926, depois de um processo intentado contra Theodor Reik, tomou vigorosamente a defesa dos psicanalistas não-médicos, publicando "A questão da análise leiga". No ano seguinte, deflagrou com seu amigo Oskar Pfister uma polêmica ao publicar "O futuro de uma ilusão", obra na qual comparava a religião a uma neurose. Enfim, em 1930, com "O mal-estar na cultura", questionava a capacidade das sociedades democráticas modernas de dominar as pulsões destrutivas que levam os homens à sua perda. Dois anos depois, em um intercâmbio com Albert Einstein (1879-1955), enfatizou que o desenvolvimento da cultura era sempre uma maneira de trabalhar contra a guerra. Cada vez mais pessimista quanto ao futuro da humanidade, Freud não tinha nenhuma ilusão sobre a maneira como o nazismo tratava os judeus e a psicanálise.

 

Entretanto, no dia seguinte ao incêndio do Reichstag, decidiu com Eitingon manter a existência da Berliner Psychoanalytisches Instiitut. Embora não aprovasse a política de "salvamento" da psicanálise, preconizada por Jones, cometeu o erro de privilegiar a luta contra os dissidentes (Reich e os adlerianos) Mas em março de 1938, no momento da invasão da Àustria pelas tropas alemãs, Richard Sterba, agiu em sentido contrário, decidindo recusar a política de Jones e não criar em Viena um instituto "arianizado" como o de Göring, em Berlim. Tomou-se então a decisão de dissolver a Wiener Psychoanalytiche Vereinigung e transporta-la "para onde Freud fosse morar". Graças à intervenção do diplomata americano William Bullitt (1891-1967) e a um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud pôde deixar Viena com sua família. No momento de partir, foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que nem ele nem seus próximos haviam sido importunados pelos funcionários do Partido Nacional-Socialista. Em Londres instalou-se em uma bela casa em Maresfield Gardes 20, futuro Freud Museum. Ali, redigiu sua última obra, "Moisés e o monoteísmo". Nunca saberia do destino dado pelos nazistas às suas quatro irmãs, exterminadas em campos de concentração.

 

Aos seus familiares, que lhe perguntavam se aquela seria a última guerra, respondia: "Será minha última guerra." Em 21 de setembro, pegou a mão de Max Schur e lembrou o primeiro encontro dos dois. "Você prometeu não me abandonar quando chegasse à hora. Agora é só uma tortura sem sentido." Depois, acrescentou: "Fale com Anna; se ela achar que está bem, vamos acabar com isso." Por três vezes, ele deu a Freud uma injeção de três centigramas de morfina. Em 23 de setembro, às três horas da manhã, depois de dois dias de coma, Freud morreu tranqüilamente. As cinzas de Freud repousam no crematório de Golders Green.

 

*Texto extraído do Dicionário de Psicanálise de autoria de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon. Jorge Zahar Editor. 1998.

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